CPI da Enel em Anápolis foi marcada por críticas generalizadas à concessionária

De venda a apagões na cidade, questões foram discutidas por vereadores, deputados, representantes da população e defesa da empresa

Da Redação Da Redação -

Em mais de duas horas de reunião no plenário Teotônio Vilela, nesta quarta-feira (17), membros da CPI da Enel puderam ouvir dos vereadores as principais queixas da população de Anápolis em relação ao serviço prestado pela empresa italiana concessionária do serviço de distribuição de energia elétrica em Goiás.

A Comissão Parlamentar de Inquérito instalada na Assembleia Legislativa tem investigado supostas irregularidades na privatização da Celg, além da qualidade dos serviços prestados pela Enel.

Essa foi a primeira vez desde que foi instalada que a CPI realizou uma sessão itinerante. Os deputados atenderam a um requerimento da Câmara Municipal, de autoria do vereador Pedro Mariano (PRP), trazendo então a estrutura da comissão para Anápolis.

A reunião foi presidida pelo deputado estadual Amilton Filho (SD), que é suplente do colegiado. Outro parlamentar de Anápolis, Antônio Gomide (PT), também suplente da CPI, participou ativamente dos trabalhos. Os titulares Chico KGL (DEM) e Cairo Salim (PROS) – esse último relator da comissão – marcaram presença na sessão.

Os vereadores apresentaram diversas críticas à venda da Celg e ao trabalho realizado hoje pela Enel.

Mauro Severiano (PSDB) citou algo que ele vem denunciando na tribuna nas sessões ordinárias: os apagões na zona rural de Anápolis causam prejuízos irreparáveis aos produtores de leite, que precisam de energia elétrica para ligar os equipamentos de ordenha das vacas.

“É notória a péssima qualidade do serviço”, iniciou o vereador Lisieux José Borges (PT) na sua exposição. Ele defendeu as empresas que fornecem produtos para a Enel, como as fabricantes de padrões. A companhia italiana tem feito exigências impossíveis de cumprir nesse primeiro momento, o que pode provocar falências e o fim de postos de trabalho.

Lélio Alvarenga (PSC) questionou o valor da venda da Celg, considerado muito baixo por ele. O vereador Jean Carlos (PTB) também argumentou em relação ao preço que a Enel pagou pela companhia. O petebista perguntou ainda quais são as metas de investimentos anuais. Jean também pediu maior facilidade para a indenização de pequenos consumidores, quando há perdas em decorrência de oscilação da energia elétrica. Hoje o processo para reparar a perda de um eletrodoméstico queimado demora muito tempo.

O vereador Teles Júnior (PMN) também analisou o valor de venda da Celg e fez observações sobre aos prejuízos que a falta de investimento da Enel tem causado ao setor produtivo. É o caso do centro de convenções de Anápolis, que não tem energia elétrica para grandes eventos porque não há megawatts disponíveis na rede local para isso. “O Residencial Santa Cruz fica até dez horas sem energia”, completou.

Já Wederson Lopes (PSC) fez ponderações em relação à qualidade do serviço oferecido pela Celg antes da privatização. Ele lembrou, por exemplo, que o centro de operações foi fechado em Anápolis antes da venda para a Enel. “Havia sim uma esperança com a privatização”, frisou. Wederson questionou onde foi parar o dinheiro pago pela Enel, já que diversas obras foram lançadas nos municípios através do programa Goiás na Frente, em nome desse dinheiro, mas hoje a maioria delas encontra-se parada, sem recursos.

A vereadora Professora Geli (PT) falou que é contra a privatização de serviços essenciais para a população. “Como puderam dizer que o povo goiano não dava conta de administrar a empresa e a outorgaram para uma companhia cuja maioria do capital é do governo italiano”, salientou.

Para o vereador João da Luz (PHS), a venda da Celg foi um “péssimo negócio”. “A Celg valia R$ 10 bilhões e foi vendida por R$ 2 bilhões. Ainda deram isenção de 33% do ICMS com prazo a perder de vista”, completou. Ele frisou que mesmo em último lugar no ranking nacional de prestadoras da sua área, a Enel ainda conseguiu aumentar a energia em Goiás em 15% para residências e 26% para indústrias.

“Quero que a CPI não termine em pizza e dê resultado importante para a população”, resumiu o vereador Pastor Elias (PSDB) na sua exposição. Luiz Lacerda (PT) disse que todas as ações tomadas pela Enel até hoje em Goiás foram mais visando o lucro do que com o objetivo de prestar um bom serviço à população. “Ela não tem preocupação nenhuma com a sociedade, mesmo porque não tem concorrente e faz o que quiser”.

O vereador Alfredo Landim (PT) ponderou sobre a proposta da Enel de trocar os relógios de energia das casas quando há qualquer alteração na conta, gerando um custo maior aos consumidores, sobretudo os mais carentes.

Para João Feitosa (PTB), o governo passado “deu a Celg para a Enel”. “Uma empresa que valia muito, era uma das melhores em termos de qualidade no Brasil, foi vendida por pouco. Tem alguma coisa errada nisso”, comentou.

O vereador Pedro Mariano (PRP) citou um caso pontual, de um produtor de bananas de Anápolis, que teve 20% da plantação cortada porque estava embaixo de uma rede da Enel. “E ele não foi ressarcido. Não foi ao menos avisado que fariam isso”, criticou.

Presidente

O presidente da Câmara Municipal de Anápolis, Leandro Ribeiro (PTB), disse que todos estavam honrados de receber a primeira sessão itinerante da CPI da Enel. Ele apontou como uma das principais deficiências da companhia em Anápolis, os apagões que acontecem de maneira frequente.

Leandro ressaltou que há casos de pessoas que possuem aparelhos de saúde em casa e acabam correndo sério risco com a queda de energia. “Até mesmo diabéticos, que precisam guardar suas insulinas na geladeira”, completou.

Segundo o presidente, a energia na região central oscila tanto que o escritório de sua empresa já teve cinco computadores queimados. “Imagina as empresas maiores”, completou.

Deputados se comprometem com Anápolis

O deputado Amilton Filho frisou a importância da CPI realizar a sessão itinerante em Anápolis, um dos polos de desenvolvimento de Goiás, portanto representativa das demandas que o setor produtivo sofre hoje com a falta de energia elétrica. Amilton se comprometeu a apresentar requerimentos à comissão, pedindo oficialmente os dados levantados pelos vereadores, como o número de funcionários que a companhia tem hoje na cidade.

Já o deputado Antônio Gomide disse que não basta olhar contratos, é preciso debruçar naquilo que é importante, no que a Enel necessita de melhorar para atender a população. “Venderam gato por lebre. Diziam que se vendesse a Celg, resolveria o problema da energia do dia para noite em Goiás”.

Gomide frisou que há muitas reclamações no Daia, de empresas que precisavam aumentar sua produção energética, mas que não são atendidas pela Enel. “Anápolis simboliza a industrialização em Goiás. A Enel tem travado o nosso desenvolvimento”.

O deputado Chico KGL apresentou os termos do requerimento que criou a CPI da Enel e também se comprometeu a levar as demandas dos vereadores de Anápolis para a Assembleia.

“Nosso papel é fiscalizar, essa á a razão de ser do parlamento, fiscalizar e representar as pessoas. A Celg foi usurpada dos goianos. Mas agora, com a Enel, quero saber da qualidade do serviço prestado à população”, comentou o relator, deputado Cairo Salim.

Representantes da população também falam na CPI

Representantes da população também tiveram direito a fala na sessão da CPI. Representante do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Anápolis e da Fieg, Robson Braga, falou da preocupação de a Enel não estar aceitando alguns produtos produzidos por empresas locais, como os padrões de energia.

A Enel está exigindo que todas tenham ISSO 14001 até 1º de outubro, o que é inviável em um primeiro momento. “Precisamos ter tempo para adequação”, frisou o empresário.

Braga reclamou da falta de comunicação da Enel. “Só atende por e-mail. Como atender 3 milhões de contribuintes? Impossível”, afirmou o líder classista.

O corretor de imóveis em Anápolis Castro Alves questionou os valores de alguns prédios da antiga Celg que foram repassados pela Enel em Anápolis. Um imóvel no Centro, por exemplo, está sendo vendido hoje pela companhia italiana por R$ 1,8 milhão.

Elber Sampaio falou que foi demitido no início dos anos 1990 da antiga Celg, no por lutar por direitos, contra o que era na época o início da dilapidação da empresa. “Veja bem: ela não servia aos interesses do povo goiano e por isso foi vendida. E agora serve aos interesses do povo italiano”.

Representante dos produtores rurais da região do Piancó, Amélia Mendes fez um relato detalhado do descaso da Enel com a população. Segundo ela, a companhia estava lhe cobrando em meados de 2018 um total de 49 talões em atraso.

“Ninguém fica com dois talões em aberto na zona rural porque cortam”, justificou a produtora. O valor da dívida chegava a R$ 70 mil e com a ameaça de que tirariam o medidor dela, Amélia pagou R$ 40 mil. “Paguei a apareceram ainda 25 talões em atraso”.

Ela afirmou que entrou na Justiça, mas mesmo assim cortaram sua energia, lhe deixando 25 dias sem luz, o que lhe causou problemas na irrigação da plantação e na segurança. Desprotegida, ela e o marido foram assaltados com requinte de crueldade.

Advogado tem espaço para defesa da Enel

O advogado da Enel, Lúcio Flávio Siqueira de Paiva, também falou na sessão da CPI, fazendo uma defesa da companhia.

Segundo ele a empresa está há 26 meses no comando do setor em Goiás, um tempo curto para resolver todos os problemas. “Principalmente porque a Celg ficou dez anos sem investir”.

Lúcio Flávio disse que a Celg D foi tão negligenciada pelo Estado que estava na eminência de perder sua concessão. “Aí ela não valeria nada em termos de mercado”.

O advogado lembrou que a Eletrobrás adquiriu 51% das ações da Celg em 2015, em um processo de federalização iniciado em 2012, a partir de uma gestão compartilhada.

Lúcio Flávio disse que a média de investimentos da Enel em Goiás é de R$ 770 milhões por ano, enquanto a Celg teve uma média de investimentos, entre 2007 e 2012, de R$ 191 milhões.

Segundo o advogado, a companhia italiana cumpre rigorosamente o contrato com Goiás

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